28/01/2006 20:09
absolutamente desconcertada. não sei, sou uma semi-analfabeta social. semi porque aprendi com mamãe a não arrotar em público e não dar cotoveladas em velhinhas no metrô, mas semi porque em certas ocasiões a ignorância me deixa em pânico, sem outra ação que não olhar fixamente, aparvalhada, o rosto da pessoa com quem momentaneamente interajo socialmente.
tenho assombrações dentro de mim. pessoas, bacanas até, não têm a menor idéia que ocupam o lugar de assombrações dentro da minha bizzara psicologia. assombrações por me trazerem de volta pedaços de mim que fico tentando esquecer. será que todo mundo tem algo assim?
eu passei por cantos tantos tão diferentes de mim que nem tenho a noção exata da dimensão toda de mim. assim, num dia posso olhar pra um quadro e chorar de emoção pra no dia seguinte ele não me dizer nada. passei anos odiando café amargo, hoje sou viciada em café puro. movendo-me para questões mais complexas, acho que não tomaria nem metade dos posicionamentos que já tomei em determindada época da minha vida. já fui um pouco de tudo e sei lá o que mais vou ser. poético? talvez pra criar um personagem pra uma história bem maneira, mas pra se viver na real, um pouco confuso.
tenho a impressão de que deixo pessoas confusas... sendo eu confusa, o que haveria de se esperar?
enquanto descia a escada rolante, tranquila, olhei alguém, no degrau de baixo, de costas pra mim. "parece familiar... é? será que é? cabelos embranqueceram um pouco, um pouco mais magro... ahhhhh... é".
daí pra frente, descarga adrenérgica -sangue irriga mais rápido as pernas, o rosto corado. patética. ele vira pra traz e mira direto e rápido nos meus olhos. caraca, deve ter sentido o cheiro do meu pavor.
desconcertada.
porque o assombro?
mais um lance de escadas rolantes pra descer. e eu teria que seguir descendo, mas desvio pra um pet shop, pra me esconder debaixo das orelhas de um basset babão. aaah...
porque o assombro?
seria ele a causa? ele esperaria algum gesto, alguma palavra da pessoa que eu já fui? a expectativa que ele teria agora de mim seria a partir da imagem de alguém que não é mais.
não é?
seria eu mesma a causa do assombro? esbarrar com uma parte desconfortável de mim que julgava passado mas que ainda pulsa de algum modo - estranho.
sensação que de repente desaprendi tudo que aprendi nesses anos. que vou responder com as palavras que não saem da minha boca há tempos. e nem sinto saudade dessas palavras... tudo mudou...
não tenho mais a menor vontade de responder-lhe como já respondi um dia, não sorrio mais do mesmo jeito, o jeito que eu coço a orelha não é o mesmo. no entanto, por um breve momento sinto-me transportada, numa queda brusca, dentro de gestos que já haviam se desfeito mas que deixaram traços por terem sido, algum dia, tão automáticos e cotidianos.
esses traços remanescentes me assustam nesse momento, pois não tinha me dado conta que ainda estavam ali... mutante mesmo? o que levo e o que deixei? é tudo escolhido claramente, mesmo?
enviada por danita
25/01/2006 01:11
"Uma baguete de pão italiano ou uma baguete de pão francês?" ele olha, devagar e com os olhos atentos. parece pensativo. enquanto isso, o homem segura os dois pães a sua frente e espera. ele levanta a mão devagar e indica ao homem, com o dedo que aponta e o olhar de decisão: italiano, pão italiano.
o homem coloca o pão no carrinho, estacionado logo atrás deles. ele então vai para a próxima gôndola, inclinando com a mão a pequena alavanca que aciona o motor da cadeira. detém-se nos bolos para o café da manhã. "fubá, laranja ou chocolate?" ah, difícil decisão. seus olhos passam de um a outro, analisando qual seria o mais saboroso para o café da quarta-feira, dia próximo. de novo, ele levanta a mão devagar e indica apontando o dedo e olhando decidido: fubá. o homem o segue, solícito e tranquilo.
enquanto isso, ela balbucia palavras incompreensíveis, tentando fazer-se entender. ela quer algo que está sobre a mesa. a mulher faz várias tentativas - colher de banana amassada, copo de leite, boneco de lã vermelha, embalagem colorida de cereal matinal. ela vira a cabeça negando o que não quer, até que finalmente chega em suas mãos o pedaço de pão que estava sobre a mesa. parece satisfeita. ouve um barulho vindo da sala, parece a porta de entrada se abrindo. ela se agita sobre a cadeira em que está acomodada, sinalizando que quer mudar de posição. ela volta o olhar pra fora da cozinha, demonstra querer sair dali. a mulher a ajuda a sair, e ela sai cambaelando em direção a sala.
ela caminha correndo até chegar a ele. eles se encontram e conversam por horas. e se entendem muito bem. sem intérpretes ou mediadores.
enviada por danita
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